Como é morar em Ushuaia, no extremo sul do planeta

A rotina, o frio, as montanhas e as pequenas adaptações de quem viveu anos no Fim do Mundo

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Durante os anos em que vivi em Ushuaia, uma das perguntas que mais ouvi foi:

“Mas como é morar no Fim do Mundo?”

Muita gente imagina a cidade mais austral da Argentina como um lugar isolado, congelado e quase inabitável. E embora o frio realmente faça parte da rotina, a vida em Ushuaia acaba sendo muito mais urbana e normal do que muita gente pensa.

O slogan de “Fim do Mundo” faz todo sentido pela localização geográfica da cidade e funciona perfeitamente como chamariz turístico. Inclusive, eu mesmo reproduzi essa marca incontáveis vezes ao longo dos anos. Mas a verdade é que, apesar das montanhas nevadas, do frio intenso e da proximidade com a Antártida, Ushuaia está longe de ser um lugar totalmente hostil.

Hoje, mais de 80 mil pessoas vivem na cidade.

E, sinceramente, já conheci lugares muito mais inóspitos na própria Patagônia.

Ushuaia é menos extrema do que parece

Antes de me mudar para Ushuaia, eu tinha uma imagem completamente diferente da cidade.

Decidi pesquisar pouco sobre o lugar porque queria ser surpreendido, mas mesmo assim carregava alguns estereótipos na cabeça. Imaginava que encontraria um pequeno povoado perdido no sul do continente e acabei chegando a uma cidade relativamente grande, organizada e cheia de vida.

Carros, comércio, escolas, universidades, restaurantes, bares, shopping, cinema, indústria.

A vida no Fim do Mundo também tem rotina. 
Talvez justamente por isso a adaptação tenha sido menos complicada do que eu imaginava.

Claro que a distância dos grandes centros, o clima e a posição geográfica tornam Ushuaia um lugar bastante peculiar. Mas o cotidiano da cidade se parece muito mais com o de qualquer outra cidade média do que com aquele cenário extremo que muita gente imagina antes de chegar.

A vida urbana no Fim do Mundo

Diria que viver uma vida extrema em Ushuaia é quase uma escolha.

É possível buscar aventuras intensas na
grande Ilha da Terra do Fogo, fazer travessias, enfrentar montanhas, neve, vento e lugares completamente isolados. Mas dentro da cidade, a rotina acaba sendo bastante urbana.

Eu seguia acompanhando futebol, escrevendo, saindo com amigos, indo ao mercado, cozinhando, trabalhando e tentando manter uma vida relativamente normal.

Mudou o lugar. Mudaram as pessoas. Mas a vida seguia. 
A diferença é que, se antes eu podia ir à praia, agora podia ir para a montanha.

O que realmente muda na rotina

Nunca imaginei que viveria rodeado por montanhas da Cordilheira dos Andes e de frente para uma baía. Nasci e cresci em Camaçari, uma cidade do litoral norte da Bahia e, embora tenha morado em Salvador, nunca subi tanta ladeira a pé quanto em Ushuaia.

Talvez uma das coisas mais especiais da cidade seja justamente essa presença constante da natureza.

Qualquer saída de casa era suficiente para olhar em direção às montanhas, principalmente para o Monte Olivia e o Cinco Hermanos, dois símbolos da paisagem fueguina.

O frio também exigiu adaptação.

Quando cheguei, em 2017, achei que estava preparado. Já tinha enfrentado temperaturas baixas em viagens anteriores e levei roupas adequadas para o inverno. Ainda assim, o clima da Terra do Fogo me colocou à prova.

As três camadas de roupa viraram rotina.

Os calçados impermeáveis passaram a ser praticamente obrigatórios durante o inverno.

E eu, acostumado a viver de bermuda, camiseta e sandália na Bahia, precisei aprender a conviver com gorros, luvas, aquecedores e casacos pesados até para ir comprar pão.

No começo parecia exagero. 
Depois virou hábito.

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O inverno no extremo sul da Patagônia

Outra coisa que aprendi em Ushuaia foi perceber mais claramente a mudança das estações do ano.

Cheguei no fim do verão, vi o outono transformar as paisagens, enfrentei um
inverno rigoroso e depois celebrei a chegada da primavera.

No extremo sul da Patagônia, os ciclos da natureza parecem mais presentes no cotidiano.

Os dias de inverno têm poucas horas de luz e, em alguns momentos, o céu cinza pode pesar bastante. Por outro lado, os dias de verão parecem intermináveis. No começo da temporada mais quente, o sol demora tanto para se despedir que às vezes parece que a noite nunca chega completamente.

Talvez por isso eu tenha aprendido a valorizar ainda mais os dias de céu azul.

Quando o Fim do Mundo vira parte da vida

Com o tempo, o extraordinário começou a parecer normal. As montanhas deixaram de ser novidade diária. A neve virou parte da rotina. O frio já não assustava tanto.

E, sem perceber, aquele lugar distante começou a se transformar em casa.

Deixei a cidade em outubro de 2023, mas muita coisa que vivi ali
continua comigo. O Fim do Mundo acabou sendo também o começo de muitas coisas na minha vida.