A história de como um jornalista baiano trocou o calor da Bahia pelo frio da Patagônia Argentina
Durante muitos anos, Ushuaia foi minha casa. Vivi na cidade mais austral do planeta entre idas e vindas, trabalhando com turismo, enfrentando os longos invernos da Terra do Fogo e descobrindo aos poucos por que tanta gente chega ao Fim do Mundo pensando em passar apenas uma temporada... e acaba ficando.
Esse texto nasceu quando eu ainda morava lá.
Muito prazer, meu nome é Hailton Andrade. Sou baiano de Camaçari e vivi por anos em Ushuaia, capital da provÃncia argentina de Tierra del Fuego e conhecida como a cidade do Fim do Mundo. Fui para lá pela aventura e pelo dinheiro. Voltei para o Brasil algumas vezes, mas algum tipo de Ãmã sempre me puxava de volta para essa cidade cercada por montanhas, bosques e neve.
No começo, as aventuras e a possibilidade de ganhar mais dinheiro pareciam suficientes para justificar a mudança. Com o passar do tempo, percebi que havia muito mais em jogo.
Onde fica Ushuaia, o famoso Fim do Mundo?
Antes de continuar essa história, vale a pena localizar Ushuaia no mapa.
Durante muitos anos, Ushuaia carregou o tÃtulo de cidade mais austral do planeta. Ou seja, a cidade mais ao sul do mundo. Hoje o posto pertence oficialmente à chilena Puerto Williams, mas o apelido de "Fim do Mundo" continua totalmente ligado à cidade argentina.
A provÃncia da Terra do Fogo, equivalente a um estado brasileiro, possui apenas três cidades: Rio Grande, Tolhuin e Ushuaia. Uma ilha isolada da Patagônia Argentina localizada a cerca de mil quilômetros da Antártida e a mais de sete mil quilômetros da Bahia, onde nasci.
Como conheci Ushuaia
Sou jornalista e, no inÃcio de 2017, tentava retomar minha carreira como repórter depois de passar um ano viajando pelo mundo. Naquela época, percebia que as coisas não estavam fáceis em Salvador. Fazia um freela aqui, outro ali, mas ainda sem conseguir algo fixo.
A verdade é que eu mesmo ainda não sabia exatamente o que queria da vida. Só sabia que precisava trabalhar e encontrar algum caminho que me permitisse continuar viajando.
Enquanto buscava emprego, tocava alguns projetos pessoais em casa. Um deles era um Instagram de viagens chamado @euvimdabahia. Foi justamente através desse projeto que conheci Ushuaia pelas redes sociais e acabei fazendo amizade com o catarinense Guilherme Hoefelmann, que vivia na cidade e trabalhava em uma agência de turismo voltada ao público brasileiro.
Bastaram algumas fotos para eu me apaixonar pelo lugar.
Era diferente de tudo que eu já tinha visto.
A mudança para a Patagônia
Naquele momento, decidi que, assim que juntasse dinheiro suficiente, compraria uma passagem para Ushuaia e tentaria a vida no extremo sul do planeta.
Imaginava que isso aconteceria somente em junho de 2017. Mas acabei me mudando já em março. Um freela no Carnaval de Salvador foi suficiente para pagar a passagem e iniciar minha jornada pela Patagônia.
Mesmo sem experiência em vendas ou turismo, me candidatei a uma vaga na agência onde Guilherme trabalhava. No currÃculo de jornalista, destaquei minha fluência no inglês e no espanhol, além de ter um básico de italiano. As minhas experiências de viagem também jogavam a favor.
Depois de uma entrevista por Skype, consegui um contrato temporário de dois meses cobrindo as férias de um funcionário. Mas, no fundo, já sentia que aquilo não terminaria tão rápido.
O choque com a nova vida no Fim do Mundo
Eu sabia muito pouco sobre Ushuaia antes de chegar. E, para ser sincero, nem quis pesquisar demais. Queria ser surpreendido.
Era como voltar para a estrada.
A aventura me chamava outra vez. A diferença é que, dessa vez, ela vinha acompanhada de um salário muito maior do que eu recebia como repórter no Brasil.
A adaptação ao frio não foi fácil. O inverno da Terra do Fogo pode ser duro para quem nasceu no nordeste brasileiro. Mas aos poucos fui aprendendo a viver naquele novo ambiente.
A cidade também ajudava.
Qualidade de vida, segurança, natureza e os amigos que surgiram pelo caminho fortaleceram meu desejo de permanecer ali. O contrato temporário acabou virando um trabalho fixo e, sem perceber, Ushuaia começou lentamente a deixar de ser apenas um destino distante no mapa.
A primeira despedida de Ushuaia
Apesar da experiência incrÃvel, Ushuaia é uma cidade de passagem para muita gente. Alguns ficam alguns dias. Outros, alguns meses. No meu caso, a primeira etapa durou um ano.
Decidi deixar a cidade para escapar do inverno, rever minha famÃlia e voltar para a Bahia. Arrumei minhas coisas e retornei para Camaçari.
Mas bastou colocar os pés no Brasil para perceber que Ushuaia ainda continuava comigo.
Voltei para a Patagônia no mesmo ano. Passei novamente pela cidade e depois segui para viver em El Bolsón, outro destino patagônico. Em 2019, retornei de vez para trabalhar mais uma temporada de inverno em Ushuaia.
E acabei ficando novamente.
Quando um lugar vira casa
Com o passar dos anos, as aventuras continuaram acontecendo nas trilhas, nos acampamentos, no snowboard e nas viagens pela Patagônia. Mas a relação com Ushuaia mudou.
O que antes parecia extraordinário passou a fazer parte da rotina.
O dinheiro já não tinha o mesmo peso que no inÃcio. A moeda argentina se desvalorizou bastante ao longo dos anos e as prioridades também mudaram. Ainda assim, Ushuaia continuava oferecendo algo difÃcil de encontrar: qualidade de vida, segurança, natureza e uma sensação muito forte de pertencimento.
Muitas vezes pensei em voltar definitivamente para a Bahia. E talvez uma parte minha nunca tenha deixado de pensar nisso.
E depois de tantos anos vivendo no Fim do Mundo, entendi que algumas cidades deixam marcas difÃceis de explicar.
Hoje já não moro em Ushuaia. Deixei a cidade em outubro de 2023. Ainda assim, uma parte de mim continua naquele extremo sul cercado por montanhas, bosques e neve.
Porque Ushuaia sempre oferece muito para quem chega.
Mas muito de quem passa por lá também fica naquela terra.
E às vezes a gente não quer se afastar dessa parte que deixou no Fim do Mundo.
Planejando uma viagem para Ushuaia?
Depois de viver por anos no Fim do Mundo, hoje também ajudo viajantes a organizarem roteiros personalizados para Ushuaia e Patagônia de acordo com o perfil de cada viagem.


Redes sociais